aqui pelo campo

No cimo das montanhas a paz existe. Goeth

1 comentário



Volto do Porto de uma dia curioso e que tem algo a ver com este momento tão especial que passei agora comovida a ler a carta da Joana. Fui passar uma pedaço do meu dia com a minha mãe para contrariar as minhas constantes idas á pressa. É caso para pensar que o nosso actual “Posso ligar já  de volta?” a que nos habituamos de pressa constante compromete momentos que um dia choramos perder.
Conheci a Joana pelo facebook, por intermédio do Ze Maria que já conhecia de vista  anfitriado por algo que ambos gostávamos, a pintura! Vim a trocar uns emails via face porque “a tua cara não me é estranha…” Desses emails resultou a amizade com a mulher dele que uns meses mais tarde me atirou também a mim contra a parede quando a morte dele me contou. Por este meio que une quem esta longe e afasta quem esta perto tenho vindo a conhecer, e mais a ganhar amigos fantásticos,amores também. 
Pedi á Joana que deixasse aqui a sua mensagem de esperança de como superar a morte de quem contamos que nunca morra. Deixo-vos com ela e com a musica com que a li. 




Graça,

Aqui vai o resultado do desafio que me fizeste. Custou a “arrancar” porque não conseguia encontrar a forma de começar !!
Finalmente o momento chegou e não foi tão difícil como imaginei que seria.
Espero que isto ajude outras pessoas de alguma forma.
Vale o que vale, mas foi escrito com o coração nos dedos de ambas as mãos🙂

Beijinhos


Chove copiosamente lá fora – alguém me disse que são lágrimas de saudade de quem partiu…
Prefiro pensar que é a Mãe natureza a lavar a alma, porque chorar é também o lavar da alma.
O Zé Maria partiu, para onde não sei. Gosto de pensar que anda por esse universo a conhecer sítios, culturas e pessoas que lhe dão paz, conforto e lhe proporcionam muitas gargalhadas.
Foram mais de dois anos intensos, tão intensos que para nós pareciam uma vivência de duas pessoas juntas 30 anos, ou mais…Mais de dois anos de tudo, de muita dor mas de muita alegria, de amor profundo, de lágrimas e de plena felicidade. Dois anos que nos pediram todas as forças, tudo o que de emocionalmente um ser humano é capaz de ter e de dar. Dois anos de entrega total. Entrega mutua, entrega a uma batalha que nenhum conseguiu vencer, mas que ambos saímos vencedores. O Zé Maria conquistou uma paz merecedora depois de lidar com uma doença que o definhou, lhe retirou todas ou quase todas as capacidades. Eu conquistei muito, e é desse muito conquistado que me pediram para escrever alguma coisa. Porque aquilo que conquistamos é a aprendizagem de todos os dias, todos os momentos, sentimentos e a forma como retiramos de tudo isso, algo que nos dá força para caminhar.
Escrevo como penso e como converso – daí a frontalidade das palavras e do sentir.
Quando se chega a um ponto da vida, deste percurso individual que por si é único e que cada um o faz de forma diferente, as expectativas são quase sempre de preenchermos o tempo que nos resta pacificamente, o nosso tempo, com o nosso tempo, sem pressas, sem horas, sem compromissos. E eis que a vida se transforma quando menos esperamos, porque sem pré-aviso aparece alguém que nos faz reviver e sentir coisas que pensávamos já não seriam possíveis de sentir e de viver – amor, amor…esse sentir que nos dá força, vida, alegria, acreditar, sonhar ! Não que nada disto não existisse, mas tornam-se maiores, reais, palpáveis. Sem esforços a cumplicidade nasce, o nosso intimo reabre-se para outro ser. O dia começa com a presença de alguém que se torna tão importante como o ar que respiramos. Continua com partilhas, com o dar e receber e deitamo-nos no aconchego, na presença de um ser que nos adormece e que acreditamos continuar para sempre ao nosso lado.
Seria assim o final de um conto feliz, daqueles que quando éramos crianças nos habituamos a sonhar. Mas a vida tem outras formas de nos ensinar que não, que essa felicidade existe mas que também termina – como tudo que nasce também morre. É uma verdade cruel mas real. Nada me preparou para saber enfrentar esse vazio. Nem o facto de no percurso entre tratamentos, consultas e internamentos saber que nada ou muito pouco havia a fazer. Que a vida estava aprazada, o tempo que tínhamos estava contado. Quando a morte chega, bate-nos no intimo como uma tonelada que esmaga tudo o que somos e acreditamos.
Quando o Zé Maria morreu esse sentimento de crueldade e revolta perante o que a vida me tinha dado e a morte retirado, foi tremendo.  À mistura, uma saudade gigantesca, sentimento de perda, de dor, de uma angustia sufocante. Andei anestesiada, distante e perdida durante dias e noites, algumas semanas. Ao mesmo tempo quis “enganar” o luto, mantendo-me ocupada, a dar seguimento a projectos e planos. Continuei a preocupar-me com o bem estar de todos os que me são próximos, tudo isto sem tempo para respirar, a pedir baixinho que também eu pudesse partir para junto dele, estivesse o Zé Maria onde estivesse. Nos limites de um estado emocional, físico e psicológico, tudo o que queria era “esgotar-me” completamente, para deixar de sentir. E surgem as duvidas, até que ponto é que ele tinha sido feliz, se eu lhe teria dado tudo o que era possivel para que na sua dor, revolta e angustia, o tivesse aliviado. Queria desesperadamente fazer-lhe uma quantidade enorme de perguntas – precisava que ele e só ele me respondesse. Reli e-mails, mensagens guardadas. Conversei com ele enquanto lidava com a quinta e prosseguia com as obras que foram necessárias fazer. O vazio continuava e a minha revolta passou a ser em relação a ele. Porque tinha que partir quando eu precisava tanto dele. Porquê essa doença macabra, quando finalmente tínhamos conseguido tudo aquilo que mais desejávamos na vida. Porque tinha sido tão difícil, causado tanta dor e humilhação, exigido tanto de mim para depois me deixar sem nada, vazia e perdida. Tinha ele percebido o quanto eu estava a sofrer todos os dias, mas ia chorar longe de tudo e de todos. Teria eu falhado em alguma coisa, não ter feito mais, não ter conseguido dar-lhe tudo o que ele precisava.  Sabia ele da dor que eu sentia de nunca mais podermos conversar, discutir, rir, dançar, almoçar, sentarmos-nos no alpendre, passear, dormir e acordarmos juntos. E apesar desta revolta, dava tudo que é tão pouco, para que ele voltasse. No meu intimo eram assim os meus dias e noites.
O Natal surgiu, e com ele um cansaço medonho. Meses antes, tínhamos falado sobre o Natal. Ambos gostávamos que fosse aqui em casa, nós e os filhos.
Depois de dois anos que tanto tinham exigido, presenciar lentamente a morte, após semanas de permanente revolta, saudade e dor, a ultima coisa que eu queria pensar era no Natal. Queria ter e sentir paz, não queria ter pessoas à minha volta, não ter que planear nada, cozinhar, preparar, limpar, arrumar. Nada. O Natal não fazia sentido nem o que tínhamos combinado e conversado. Para além disso, fazia 2 anos que a minha Mãe também tinha partido. Duas mortes, duas perdas celebradas entre bacalhau com batatas e rabanadas – tudo aquilo que para mim nada tem a ver com o Natal.
Natal – família, partilha, amor, o próximo…. E fez-se luz !
Tudo isto era/é o que nós acreditamos/acreditávamos. Tudo isto era/é o que fomos/somos um para o outro. Tudo isto se resumia ao que tínhamos sido e vivido juntos. Foi a minha ultima maratona antes de acabar o ano, mas valeu a pena. Na presença dos filhos, na ausência do Zé Maria, o Natal foi Natal !
No dia 27 de Dezembro deitei-me completamente esgotada de tudo, e prometi a mim mesma que no ano que se iria iniciar, custasse o que custasse, fosse ou não uma decisão egoísta, iria tratar de mim. Durante o tempo que fosse necessário, iria dormir – muito. Acordar quando tivesse que acordar. Comer quando tivesse fome. Sair se me apetecesse sair ou ficar em casa, dias e semanas se o meu estado de espírito me pedisse.
Continuo neste regime, apesar de ir ocupando o tempo com outras coisas – planear mentalmente o meu estúdio, um quarto da casa com muita luz, com espaço para uma mesa grande de trabalho, o cavalete, uma poltrona com as lãs por perto para as minhas “mantas da avó” que todos os dias vou criando. Acordo com ideias novas, ou pelo menos com vontade de as concretizar. Quero começar um novo capitulo, aprender, conhecer, ser feliz. Eu, a quinta, os filhos, os amigos.
Todos os dias acordo com o Zé Maria ao meu lado, uma fotografia que tenho no quarto com ele a sorrir.
Todos os dias converso com ele e relembro os momentos, (tantos mais que tantos), bons que tivemos juntos.
Todas as noites conto-lhe o que sinto e digo-lhe muito baixinho: “Amo-te muito, muito, muito. Até amanhã “.
Continua a chover copiosamente lá fora. A serra mal se vê e nas telhas bate o ritmo da Mãe natureza a lavar-me a alma.

Um pensamento sobre “No cimo das montanhas a paz existe. Goeth

  1. Obrigada por esta partilha!Nada vence o amor.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s